Sumário
Tem gente que descreve assim: “é como se eu estivesse vendo o mundo através de um vidro fosco.” Outros dizem que os lugares mais familiares, a própria casa, a rua de sempre, de repente parecem cenário de filme. Alguém ao lado fala, e a voz chega abafada, como se viesse de outro cômodo.
Se alguma dessas descrições soou familiar, isso não significa que algo está irremediavelmente errado com você.
Neste artigo, explico o que é a desrealização, como ela se manifesta, por que acontece e o que pode ajudar a partir de agora.
O que é desrealização?
Desrealização é a sensação de que o ambiente ao redor não é real. O mundo parece distante, artificial, “achatado”, como se houvesse uma camada entre você e tudo o que está acontecendo.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) descreve a desrealização como experiências de irrealidade ou distanciamento em relação ao ambiente, seja em pessoas, objetos ou tudo ao redor.
Desrealização não é perder contato com a realidade. A pessoa sabe, racionalmente, que o mundo é real e que ela está nele: a percepção muda, o julgamento sobre o que é real continua intacto. Essa diferença separa a desrealização de um quadro psicótico, e explica boa parte da ansiedade que ela gera. A pessoa percebe que algo está errado e não consegue “consertar” a sensação só de querer.
Desrealização e despersonalização: qual a diferença?
Os dois termos andam juntos e costumam ser confundidos.
Desrealização é o estranhamento em relação ao mundo: o ambiente parece falso, distante ou bidimensional.
Despersonalização é o estranhamento em relação a si mesmo: o corpo, as emoções e os pensamentos parecem não pertencer à pessoa.
É comum que apareçam juntas, mas uma pode ocorrer sem a outra. Se você quiser entender essa diferença com mais profundidade, e como as duas se encaixam no Transtorno de Despersonalização e Desrealização (DPDR), escrevi sobre isso em detalhes neste artigo.
Quais são os sintomas da desrealização?
Os sintomas variam, mas alguns relatos se repetem com frequência:
Distorções visuais
- Ambientes que parecem borrados, achatados ou “sem profundidade”
- Cores mais apagadas do que o normal, ou ao contrário, exageradamente vívidas
- Objetos que parecem maiores, menores ou mais distantes do que realmente estão
- Sensação de estar dentro de um filme, de uma fotografia ou de um sonho
Distorções auditivas
- Sons e vozes que parecem abafados, distantes ou vindo “de outro lugar”
- Ruídos do ambiente que parecem mais altos ou mais baixos do que deveriam
- Sensação de que o tempo está passando rápido demais ou devagar demais
- Lugares conhecidos (a própria casa, o trajeto de sempre) que parecem estranhos ou desconhecidos
- Pessoas próximas que parecem distantes, “como atores”, mesmo estando fisicamente perto
A pessoa percebe tudo isso com clareza. Os olhos veem o ambiente normalmente, sem confusão mental e sem alucinação. A sensação de que aquilo é real, porém, não acompanha o que os olhos veem, e essa dissonância entre saber e sentir é o que torna a experiência tão desconfortável.
Desrealização tem cura? Quanto tempo dura?
A resposta curta: sim. Na maioria dos casos é possível melhorar de forma significativa, e em muitos casos a desrealização desaparece por completo.
A duração depende do tipo de quadro:
Episódica: dura minutos ou horas, geralmente disparada por um pico de ansiedade, uma crise de pânico, uma noite mal dormida ou um momento de estresse intenso. Passado o gatilho, a sensação tende a se dissipar sozinha. Episódios assim são muito mais comuns do que se imagina, estima-se que a maioria das pessoas vivencie algo parecido pelo menos uma vez na vida.
Persistente ou recorrente: os episódios voltam com frequência ou os sintomas simplesmente não vão embora, instalando-se por semanas, meses ou anos. Quando isso acontece e passa a interferir na rotina, no trabalho, nas relações, entra-se no quadro do Transtorno de Despersonalização e Desrealização (DPDR), que afeta cerca de 1 a 2% da população e tem tratamento.
Em ambos os casos, a desrealização não costuma evoluir para algo “pior” como psicose ou perda permanente de contato com a realidade. O que ela faz é se manter, às vezes por muito tempo, quando a pessoa entra num ciclo de tentar lutar contra a sensação, o que geralmente intensifica a ansiedade e, com ela, a própria desrealização.
O que causa a desrealização?
Não existe uma causa única, mas alguns fatores aparecem com frequência:
- Ansiedade e crises de pânico: a desrealização costuma aparecer junto com picos de ansiedade intensa, como uma espécie de “disjuntor” do sistema nervoso
- Estresse prolongado ou esgotamento: períodos de sobrecarga emocional, físico ou mental que se estendem por muito tempo
- Episódios traumáticos: situações de forte impacto emocional, principalmente quando a pessoa não teve espaço para processá-las
- Uso de substâncias: em especial maconha e alucinógenos.
- Outros transtornos: depressão, TEPT, Transtorno de Personalidade Borderline e outros transtornos dissociativos podem ter a desrealização como um dos sintomas
Ter um desses fatores na história não significa que a pessoa vai desenvolver desrealização. Não ter nenhum também não significa que ela “não devia” estar sentindo isso. A forma como cada pessoa reage à própria ansiedade e à própria sensação de estranhamento parece pesar tanto quanto o gatilho em si.
Como sair da desrealização: o que ajuda agora e o que ajuda no longo prazo
No momento do episódio, técnicas de ancoragem sensorial (grounding) costumam ajudar a reduzir a intensidade. Uma das mais conhecidas é a técnica 5-4-3-2-1:
- 5 coisas que você consegue ver
- 4 coisas que você consegue tocar
- 3 coisas que você consegue ouvir
- 2 coisas que você consegue cheirar
- 1 coisa que você consegue saborear
A técnica traz a atenção de volta para sensações concretas do presente, sem tentar “convencer” o cérebro de que tudo está bem. Para algumas pessoas funciona bem. Para outras, ajuda pouco, e está tudo bem se for o seu caso.
No longo prazo, o que tem mostrado mais resultado é a psicoterapia. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) trabalha os padrões de pensamento que alimentam o ciclo ansiedade → desrealização → mais ansiedade. Já a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) foca em mudar a relação da pessoa com a sensação: em vez de gastar energia tentando eliminá-la, aprender a seguir vivendo, fazendo o que importa, mesmo enquanto ela ainda está presente. Para muita gente, é justamente essa briga constante contra o sintoma que o mantém ativo.
Quando buscar ajuda?
Se os episódios são raros e passam sozinhos, geralmente não há motivo para alarme. É uma resposta comum do corpo a momentos de estresse.
Mas se a sensação de irrealidade está presente na maior parte dos dias, se já dura semanas ou meses, ou se está afetando seu trabalho, seus relacionamentos ou sua vontade de fazer as coisas, vale a pena procurar um profissional que conheça o tema. A DPDR ainda é pouco discutida na formação clínica geral, e encontrar alguém com experiência específica costuma fazer diferença real no tratamento.
FAQ
O que é desrealização?
Desrealização é a sensação de que o ambiente ao redor não é real — o mundo parece distante, artificial ou “achatado”, como se houvesse uma camada entre a pessoa e tudo o que está acontecendo. A pessoa continua sabendo, racionalmente, que o mundo é real.
Qual a diferença entre desrealização e despersonalização?
Desrealização é o estranhamento em relação ao mundo (o ambiente parece falso ou distante). Despersonalização é o estranhamento em relação a si mesmo (corpo, emoções e pensamentos parecem não pertencer à pessoa). As duas costumam ocorrer juntas, mas podem aparecer separadamente.
Quais são os sintomas da desrealização?
Os mais comuns incluem distorções visuais (ambientes borrados ou “sem profundidade”), distorções auditivas (sons abafados ou distantes) e distorções de tempo e espaço (lugares familiares parecendo estranhos, sensação de tempo acelerado ou lento).
O que causa a desrealização?
Entre os fatores mais comuns, estão ansiedade e crises de pânico, estresse prolongado, episódios traumáticos, uso de substâncias (maconha, alucinógenos) e outros transtornos, em especial depressão e Transtorno do Pânico
Lucas Augusto é psicólogo (CRP 07/35339), mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA e especialista em despersonalização e desrealização. Atende online desde 2021 e tem pesquisa publicada sobre DPDR e Terapia de Aceitação e Compromisso. Se quiser conversar sobre o que está vivendo, entre em contato pelo WhatsApp.
Lucas Augusto
Psicólogo especializado em DPDR · CRP 07/35339
Mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, com pesquisa publicada sobre DPDR. Atendo online desde 2021 por ACT e TCC. Se quiser conversar sobre o que está vivendo, entre em contato.
