Como lidar com a desrealização: técnicas e tratamento

como sair da desrealização

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Quem já teve desrealização conhece a reação instintiva: tentar se reconectar com a realidade na força. Piscar com mais força, apertar o rosto, bater na própria perna. Ou paralisar e ficar olhando em volta tentando confirmar que o ambiente é real.

Essas reações quase nunca funcionam. Na maioria das vezes, pioram.

O que ajuda num episódio agudo é diferente do que sustenta a melhora no longo prazo. Entender como sair da desrealização começa por separar esses dois momentos.



Por que lutar contra a desrealização geralmente não ajuda

A desrealização tem relação direta com a ansiedade. Ela tende a aparecer quando o sistema nervoso está em estado de alerta elevado, e se intensifica quando você fica monitorando a própria percepção tentando confirmar se está “voltando ao normal”.

Quanto mais atenção você direciona para a sensação de irrealidade, mais presente ela fica. É o mesmo mecanismo que faz você não conseguir dormir quando fica pensando em dormir.

Shaun O’Connor, cineasta irlandês que viveu com DPDR crônico por anos e documentou sua recuperação, descreve essa armadilha como lidar com um bully: quanto mais você reage, mais ele volta. A postura que funciona é notar a sensação sem reagir, sem tentar confirmá-la ou eliminá-la.

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), uma das abordagens com evidência clínica para DPDR, parte de premissa semelhante: a tentativa de controlar ou eliminar uma experiência interna indesejada tende a amplificá-la. A ACT propõe continuar fazendo o que importa mesmo com a sensação presente, sem gastar energia tentando apagá-la.


Como sair da desrealização: técnicas para o episódio agudo

Para episódios agudos, técnicas de grounding (ancoragem sensorial) têm o maior suporte clínico para manejo imediato de estados dissociativos.

O princípio é direcionar a atenção para estímulos sensoriais concretos do presente, interrompendo o ciclo de auto-observação.

Técnica 5-4-3-2-1

Provavelmente a mais conhecida. Consiste em nomear, em voz alta ou mentalmente:

  • 5 coisas que você consegue ver
  • 4 coisas que você consegue tocar (e tocá-las de fato)
  • 3 coisas que você consegue ouvir
  • 2 coisas que você consegue cheirar
  • 1 coisa que você consegue saborear

O objetivo é trazer o foco para o presente pelos sentidos, reduzindo a ativação do sistema nervoso que alimenta a desrealização. A técnica não tenta convencer o cérebro de que tudo está bem.

Outras técnicas de ancoragem

Não existe uma técnica que funcione para todo mundo. Algumas pessoas respondem melhor a estímulos físicos mais intensos: segurar um cubo de gelo por alguns segundos, lavar o rosto com água gelada, pressionar os pés com força no chão. Outras preferem foco auditivo, nomear sons ao redor, ou contagem regressiva.

A Psychology Tools compila variações de grounding organizadas por modalidade sensorial, útil para encontrar o que funciona para você.

Grounding alivia a intensidade do episódio, mas não elimina o quadro. Para episódios persistentes, a abordagem de longo prazo é o que muda o curso.


O que ajuda no longo prazo

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

A TCC tem, até o momento, o maior volume de evidência no tratamento do DPDR. Uma revisão sistemática de 2023 no Journal of Trauma & Dissociation, com 41 estudos, encontrou redução média de 30% nos sintomas. É um resultado concreto para um transtorno que segue negligenciado na pesquisa clínica.

A TCC trabalha os padrões que mantêm o ciclo ativo: interpretações catastróficas sobre os próprios sintomas (“estou enlouquecendo”, “isso nunca vai passar”) e comportamentos de verificação e evitação que reforçam o estado dissociativo.

Estudos recentes desenvolveram um protocolo específico para DPDR, o CBT-f-DDD, com resultados promissores em ensaios de viabilidade. Um ensaio randomizado controlado completo está em andamento.

Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)

A ACT parte de um ponto diferente: em vez de modificar o conteúdo dos pensamentos e sensações, trabalha a relação da pessoa com eles. Para quem tem desrealização, isso significa aprender a não tratar a sensação como uma ameaça que precisa ser eliminada imediatamente, e retomar o engajamento com as atividades e relações que importam mesmo enquanto os sintomas ainda estão presentes.

A ACT tem suporte clínico para DPDR. Overcoming Depersonalization Disorder (Neziroglu & Donnelly) integra ACT, mindfulness e DBT em um guia clínico específico. Existem menos ensaios randomizados específicos para DPDR do que para a TCC, mas os fundamentos se encaixam com o que se sabe sobre os mecanismos do transtorno.

As duas abordagens se complementam com frequência dentro de um mesmo processo terapêutico.


O papel do engajamento comportamental

Inatividade e isolamento tendem a piorar a desrealização. A literatura clínica aponta para isso, e é o que quem viveu o quadro também descreve.

O mecanismo: quando você está ocioso, a atenção se volta para os próprios estados internos, alimentando o ciclo de monitoramento e intensificação dos sintomas. Qualquer atividade que exija atenção real quebra esse ciclo: conversar com alguém, trabalhar, ler em voz alta.

A TCC chama isso de interrupção dos ciclos de hipervigilância. A ACT chama de engajamento com valores: viver o que importa em vez de organizar a vida ao redor da tentativa de eliminar o sintoma.

Os momentos em que você consegue ficar alguns segundos sem pensar na desrealização são recuperação real. Você provou, para si mesmo, que é possível estar presente em outra coisa. Com o tempo, esses intervalos crescem.


Sobre o prognóstico: o que esperar

Desrealização episódica tende a melhorar quando o fator precipitante muda.

Para o DPDR persistente, o prognóstico varia. A revisão de 2023 mostra redução média de 30% nos sintomas com tratamento. Algumas pessoas chegam a recuperação completa; outras melhoram de forma substancial e aprendem a conviver com o quadro de forma bem menos limitante.

A melhora raramente é linear. Recaídas acontecem, em momentos de estresse elevado. O sistema nervoso respondeu a uma sobrecarga da forma que aprendeu. O progresso do tratamento não se apaga. Ansiedade e depressão comórbidas muitas vezes precisam de atenção médica, mas a psicoterapia é o eixo central do tratamento.


Quando e como buscar ajuda

Se os episódios são esporádicos e passam sozinhos, não há necessidade imediata de tratamento formal. Uma conversa com um profissional pode ajudar a entender o que está acontecendo, mas não é urgente.

Se a desrealização está presente na maior parte dos dias, já dura semanas ou meses, ou está afetando seu trabalho, seus relacionamentos ou sua capacidade de fazer o que importa, vale a pena buscar acompanhamento com alguém que conheça o tema. O Manual MSD traz uma boa visão geral do diagnóstico para quem quer entender o quadro clínico.

A formação clínica geral ainda aborda pouco o DPDR. Encontrar alguém com experiência específica faz diferença real: você não precisa explicar do zero o que está sentindo, e o processo começa de onde importa.

Para entender o que é a desrealização e como ela se distingue de outros quadros, este artigo cobre o tema em detalhes.


FAQ

Como sair da desrealização?

Não existe um método único, mas duas abordagens ajudam: no momento do episódio, técnicas de grounding (como a 5-4-3-2-1) reduzem a intensidade ao trazer a atenção para estímulos sensoriais concretos. No longo prazo, a psicoterapia — especialmente TCC e ACT — trabalha os padrões que mantêm o ciclo ativo.

Quanto tempo leva para a desrealização passar?

Episódios pontuais costumam passar quando o gatilho de ansiedade ou estresse diminui. Para o DPDR persistente, a melhora varia: estudos mostram redução média de 30% nos sintomas com tratamento. O processo raramente é linear, e recaídas fazem parte sem apagar o progresso.

Qual o tratamento para desrealização persistente?

A psicoterapia é o eixo central. A TCC tem o maior volume de evidência, com protocolo específico para DPDR em desenvolvimento. A ACT é complementar e foca em mudar a relação da pessoa com os sintomas. Não há medicamento aprovado para DPDR.

Tentar eliminar a sensação de desrealização funciona?

Geralmente não. Monitorar a própria percepção buscando confirmar se “voltou ao normal” alimenta o estado de alerta que sustenta a desrealização. Abordagens que trabalham com aceitação, como a ACT, tendem a ser mais eficazes do que as que buscam eliminação direta do sintoma.


Lucas Augusto é psicólogo (CRP 07/35339), mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA e especialista em despersonalização e desrealização. Atende online desde 2021 por ACT e TCC, com pesquisa publicada sobre DPDR. Se quiser conversar sobre o que está vivendo, entre em contato.


LA

Lucas Augusto

Psicólogo especializado em DPDR · CRP 07/35339

Mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, com pesquisa publicada sobre DPDR. Atendo online desde 2021 por ACT e TCC. Se quiser conversar sobre o que está vivendo, entre em contato.