Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) para despersonalização: o que a pesquisa mostra

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“Já tentei de tudo para me sentir real de novo, e nada funciona.” Quem convive com o Transtorno de Despersonalização/Desrealização (DP/DR) repete essa frase com frequência. Checar, evitar, pesquisar: a tentativa de eliminar a sensação de irrealidade costuma manter o ciclo ativo.

A ACT para despersonalização (a Terapia de Aceitação e Compromisso aplicada ao Transtorno de DP/DR) parte de um ângulo diferente do mais estudado até hoje. Em vez de brigar com a sensação, ela muda a relação da pessoa com ela. Aqui você vai encontrar como a ACT funciona nesse contexto, o que a pesquisa já mostra (incluindo um estudo brasileiro que conduzi) e onde essa abordagem se encaixa ao lado de outros tratamentos.

ACT para despersonalização: cadeira vazia junto a janela iluminada, atmosfera de calma e presença

O que é a ACT para despersonalização

A ACT (do inglês Acceptance and Commitment Therapy) é uma abordagem da terapia cognitivo-comportamental de terceira geração, desenvolvida por Steven Hayes e colegas. Sua proposta central não é eliminar pensamentos ou sensações desconfortáveis, mas mudar o peso que eles têm sobre as ações da pessoa.

O conceito-chave é a flexibilidade psicológica: a capacidade de entrar em contato com o momento presente e de agir de acordo com o que importa, mesmo na presença de pensamentos e sensações difíceis. O oposto disso, a rigidez psicológica, aparece quando a vida passa a girar em torno de evitar, controlar ou eliminar uma experiência interna desconfortável.

Uma meta-análise com 39 ensaios clínicos randomizados encontrou eficácia da ACT equivalente à da TCC tradicional para ansiedade, depressão, dor crônica e outros quadros (A-Tjak et al., 2015). Uma revisão posterior de 20 meta-análises confirmou que a ACT funciona de forma transdiagnóstica, ou seja, os mesmos mecanismos ajudam em diagnósticos diferentes (Gloster et al., 2020).


Por que a ACT para despersonalização faz sentido

A despersonalização e a desrealização costumam vir acompanhadas de um esforço grande para “voltar ao normal”: monitorar como você está se sentindo a cada poucos minutos, evitar situações que pioram a sensação, procurar respostas repetidas vezes na internet, pedir para outras pessoas confirmarem se você “parece normal”.

Esse padrão tem nome dentro do modelo da ACT: evitação experiencial, o esforço para alterar ou escapar de uma experiência interna indesejada mesmo quando esse esforço causa mais prejuízo do que alívio. No caso da DP/DR, quanto mais a pessoa monitora e tenta controlar a sensação de irrealidade, mais ela se intensifica. A atenção voltada para o próprio estado interno alimenta o que ela está tentando apagar.

A ACT para despersonalização não tenta convencer a pessoa de que a sensação é “boa” ou insignificante. Ensina a reconhecer a sensação sem tratá-la como uma emergência que precisa ser resolvida agora, abrindo espaço para seguir engajado com o que importa (trabalho, relações, rotina) mesmo enquanto o sintoma ainda está presente.


O que a pesquisa sobre ACT para despersonalização mostra

Até pouco tempo, nenhum estudo havia relacionado diretamente flexibilidade psicológica e sintomas de DP/DR. Conduzi essa pesquisa na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), ao lado de outros três autores (Araujo et al., 2025).

O estudo avaliou 94 estudantes universitários, medindo flexibilidade psicológica (pelo instrumento CompACT) e sintomas de DP/DR (pela Escala de Despersonalização de Cambridge). Os principais achados:

  • Uma correlação negativa moderada entre flexibilidade psicológica total e sintomas de DP/DR: quanto menor a flexibilidade, maiores os sintomas.
  • A correlação mais forte apareceu entre a subescala Abertura à Experiência, que mede a disposição para aceitar pensamentos e sensações desconfortáveis, e o domínio específico de despersonalização.
  • A subescala relacionada a valores e ação (Ações Comprometidas) não se correlacionou com os sintomas. Ou seja, o problema central não parece ser falta de direção de vida, mas a dificuldade em abrir espaço para a experiência desconfortável em si.

Esse último ponto importa na prática clínica: sugere que, para quem tem DP/DR, trabalhar a aceitação e a desfusão (dois dos seis processos da ACT) pode valer mais a pena do que apenas reforçar metas e valores, pelo menos como ponto de partida.

Como qualquer estudo, este também tem limites: amostra pequena, majoritariamente formada por mulheres, de uma única universidade. Os próprios autores destacam que é preciso mais pesquisa. Mas é a primeira vez que essa relação foi medida diretamente, e ela dá uma base concreta para o que muitos terapeutas já observavam na prática.


Os processos da ACT aplicados à despersonalização

A ACT organiza sua atuação em seis processos interligados. Aqui está como eles se aplicam especificamente à DP/DR, com base na literatura clínica (Simeon & Abugel, 2023; Neziroglu et al., 2010):

Desfusão cognitiva. Separar o pensamento do fato. “Estou tendo o pensamento de que estou enlouquecendo” é diferente de “estou enlouquecendo”. Pensamentos catastróficos sobre a própria sanidade costumam acompanhar a DP/DR; a desfusão cria distância entre a pessoa e esses pensamentos, sem negar que eles doem.

Aceitação. Abrir espaço para a sensação de irrealidade sem lutar contra ela ou tentar suprimi-la à força. Não significa gostar da sensação, significa parar de gastar energia tentando eliminá-la imediatamente.

Contato com o momento presente. Voltar a atenção para o que está acontecendo agora, em vez de ficar preso em análises intelectuais sobre a própria condição (algo comum em quem tem DP/DR, que tende a hiperanalisar a própria experiência).

Self como contexto. Diferenciar “eu tenho DP/DR” de “eu sou uma pessoa despersonalizada”. Quando a identidade inteira se funde com o sintoma, outras partes da vida perdem espaço. Lembrar que existe um “eu” que observa a experiência, e que esse eu é maior do que o sintoma, ajuda a reabrir esse espaço.

Valores. Identificar o que realmente importa (relações, trabalho, propósito) para ter uma bússola que oriente as ações, independentemente de como os sintomas estão naquele momento.

Ação comprometida. Agir na direção desses valores mesmo com os sintomas presentes, em vez de esperar “se sentir normal de novo” para voltar a viver.


Como a ACT e a TCC se combinam no tratamento

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) segue sendo a abordagem com mais estudos publicados especificamente para DP/DR, incluindo os protocolos desenvolvidos no King’s College London (Wang et al., 2023). A ACT compartilha raízes com a TCC e costuma se combinar com ela no mesmo processo terapêutico.

Um exemplo prático dessa combinação é o programa de grupo PLAN D, que integra técnicas de TCC com treino de aceitação e mindfulness para jovens com sintomas de despersonalização e desrealização. No estudo piloto, os participantes tiveram redução nos sintomas após seis meses, com amostra pequena e sem grupo de comparação (Flückiger et al., 2022).

Na prática clínica, a diferença costuma estar em qual processo é o alvo mais imediato: a TCC trabalha mais diretamente o conteúdo dos pensamentos catastróficos e os comportamentos de evitação; a ACT trabalha a relação da pessoa com a experiência como um todo. Nenhuma substitui acompanhamento psiquiátrico quando ele é indicado, especialmente diante de quadros associados como ansiedade, depressão ou TEPT.


O que ainda falta saber

A pesquisa sobre intervenções psicológicas para DP/DR é escassa de forma geral. Uma revisão sistemática de 2023 encontrou apenas 41 estudos sobre tratamento do transtorno, com só quatro ensaios clínicos randomizados no total (Wang et al., 2023). Ainda não existe um ensaio clínico randomizado testando a ACT especificamente para DP/DR como transtorno primário.

A ACT para DP/DR é uma abordagem promissora, com base teórica sólida e evidência inicial, incluindo a correlação encontrada na pesquisa brasileira. Ainda não é um protocolo validado por ensaios clínicos, como a TCC já é. O campo pede mais pesquisa. É para isso que estudos como o de 2025 contribuem.


Por onde começar

Se você reconhece esse padrão de tentar controlar ou eliminar a sensação de irrealidade e sente que isso ocupa cada vez mais espaço na sua vida, vale conversar com um profissional que tenha experiência específica com DP/DR. A abordagem (ACT, TCC ou uma combinação das duas) tende a ser definida junto com o terapeuta, considerando o que faz mais sentido para o seu caso.

Para entender melhor as técnicas de manejo no dia a dia, o artigo Como lidar com a desrealização cobre isso em mais detalhe.


O que é a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)?

É uma abordagem da terapia cognitivo-comportamental de terceira geração que ajuda a pessoa a mudar sua relação com pensamentos e sensações desconfortáveis, em vez de tentar eliminá-los, enquanto mantém o compromisso de agir de acordo com o que é importante para ela.

A ACT funciona para despersonalização e desrealização?

Existe evidência inicial promissora, incluindo uma pesquisa brasileira que relacionou flexibilidade psicológica (o construto central da ACT) a sintomas de DP/DR. Ainda não há ensaios clínicos randomizados testando a ACT isoladamente para o transtorno, então ela é considerada uma abordagem complementar em desenvolvimento, não um protocolo validado como a TCC.

ACT e TCC podem ser usadas juntas no tratamento de DP/DR?

Sim. Na prática clínica, as duas abordagens frequentemente se combinam dentro do mesmo processo terapêutico, já que compartilham raízes e trabalham aspectos complementares do quadro.

Qual é a diferença entre ACT e TCC no tratamento da despersonalização?

A TCC costuma focar em identificar e modificar pensamentos catastróficos e reduzir comportamentos de evitação. A ACT foca na relação da pessoa com a experiência como um todo, buscando aceitação e engajamento com valores mesmo na presença dos sintomas.

Preciso parar meu tratamento psiquiátrico para fazer ACT?

Não. A ACT é uma abordagem psicoterapêutica e não substitui acompanhamento psiquiátrico quando ele é indicado, especialmente diante de quadros associados como ansiedade, depressão ou TEPT.

LA

Lucas Augusto

Psicólogo especializado em DP/DR · CRP 07/35339

Mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, com pesquisa publicada sobre DP/DR e ACT. Atendo online desde 2021 por ACT e TCC. Se quiser conversar sobre o que está vivendo, entre em contato.


Lucas Augusto é psicólogo (CRP 07/35339), mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA e especialista em despersonalização e desrealização. Atende online desde 2021 e é autor de pesquisa publicada sobre DP/DR e Terapia de Aceitação e Compromisso.


Referências

  • Araujo, L. A. L., Salgado, A. C. S., Neves, L. M., & Terra, M. B. (2025). Despersonalização/desrealização e sua relação com a flexibilidade psicológica em estudantes de uma universidade federal brasileira. Revista Perspectivas em Análise do Comportamento, 16(2), 276–285. DOI
  • A-Tjak, J. G. L., Davis, M. L., Morina, N., Powers, M. B., Smits, J. A. J., & Emmelkamp, P. M. G. (2015). A meta-analysis of the efficacy of acceptance and commitment therapy for clinically relevant mental and physical health problems. Psychotherapy and Psychosomatics, 84(1), 30–36. DOI
  • Gloster, A. T., Walder, N., Levin, M. E., Twohig, M. P., & Karekla, M. (2020). The empirical status of acceptance and commitment therapy: A review of meta-analyses. Journal of Contextual Behavioral Science, 18, 181–192. DOI
  • Flückiger, R., Schmidt, S. J., Michel, C., Kindler, J., & Kaess, M. (2022). Introducing a Group Therapy Program (PLAN D) for Young Outpatients with Derealization and Depersonalization: A Pilot Study. Psychopathology, 55(1), 62–68. DOI
  • Wang et al. (2023). The Treatment of Depersonalization-Derealization Disorder: A Systematic Review. Journal of Trauma & Dissociation, 25(1). DOI
  • Simeon, D., & Abugel, J. (2023). Feeling Unreal: Depersonalization and the Loss of the Self (2ª ed.). Oxford University Press.
  • Neziroglu, F., Donnelly, K., & Simeon, D. (2010). Overcoming Depersonalization Disorder: A Mindfulness and Acceptance Guide to Conquering Feelings of Numbness and Unreality. New Harbinger Publications.