A despersonalização por maconha costuma aparecer da mesma forma: você fumou, em algum momento sentiu que tinha saído de si mesmo e, quando o efeito passou, aquela sensação continuou ali. Se é isso que está acontecendo com você, a pergunta que não sai da sua cabeça é se você estragou alguma coisa de forma permanente.
Você não é a primeira pessoa a fazer essa pergunta. Ela é estudada há mais de cinquenta anos, e a resposta é bem diferente do que costuma circular nos fóruns.
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O que você está sentindo tem nome
Despersonalização é a experiência de se sentir distante de si mesmo. As pessoas descrevem como assistir à própria vida de fora, sentir o corpo como se não fosse seu, ouvir a própria voz vindo de outro lugar, ou perceber as emoções abafadas, como se estivessem atrás de um vidro.
Desrealização é o mesmo estranhamento voltado para fora. O ambiente parece irreal, sem profundidade, como um cenário. Pessoas conhecidas parecem distantes. Cores e sons chegam diferentes.
Nos dois casos, uma coisa continua intacta: você sabe que a sensação é uma sensação. Ninguém com esse quadro acredita que o mundo virou cenário ou deixou de existir. É essa lucidez que torna a experiência tão angustiante, porque você percebe com clareza que algo mudou e não consegue explicar o quê.
Se quiser entender cada uma delas com calma, escrevi separadamente sobre o que é despersonalização e sobre o que é desrealização.
Por que a maconha provoca essa sensação
Isso acontece com pessoas sem transtorno nenhum.
Em pesquisas de laboratório, voluntários saudáveis fumaram maconha e relataram despersonalização, com o pico cerca de meia hora depois. Quem fumou um cigarro sem princípio ativo não sentiu nada disso. Junto com a sensação vieram ansiedade, tensão e confusão.
Essas pesquisas também mostraram o que mais acompanha a despersonalização: a distorção do tempo. Aquela impressão de que os minutos se esticam e a ordem das coisas se embaralha aparece antes e prevê a sensação de irrealidade melhor do que qualquer outro efeito.
Faz sentido, porque a substância mexe justo com a forma como o cérebro monta a experiência de estar presente no tempo e no próprio corpo. Sentir isso não é sinal de fraqueza, de cabeça fraca, nem de que você é diferente das outras pessoas.
Existe ainda uma combinação que assusta bastante: a maconha pode disparar, na mesma noite, o primeiro ataque de pânico da vida da pessoa e a sensação de irrealidade. Quem passa por isso costuma achar que está morrendo e perdendo a razão de uma vez.
Sentir isso durante o efeito não é o mesmo que ter o transtorno
O DSM-5, o manual usado como referência para diagnóstico, é direto nesse ponto. Despersonalização e desrealização que aparecem por efeito de uma substância, enquanto ela está agindo, não recebem o diagnóstico de Transtorno de Despersonalização/Desrealização. Se os sintomas continuarem por um tempo sem novo uso, aí sim o diagnóstico passa a valer.
Ou seja, a linha divisória não é “aconteceu comigo usando maconha, logo é transtorno”. A linha é o tempo.
O efeito passou e a sensação foi junto? Foi um episódio de intoxicação, e isso é comum. O efeito passou e a sensação ficou, semana após semana, sem você usar mais nada? Aí vale procurar avaliação.
Boa parte de quem pesquisa despersonalização por maconha está nesse intervalo, tentando descobrir de que lado da linha caiu.

Se você está nesse intervalo agora, sem saber de que lado da linha caiu, dá para conversar sobre isso.
Falar pelo WhatsAppQuando a despersonalização por maconha vira um transtorno
Segundo o DSM-5, em cerca de 15% dos casos do transtorno os sintomas foram disparados pelo uso de alguma substância, e a maconha encabeça essa lista, seguida de alucinógenos, quetamina, ecstasy e Salvia divinorum. Nas clínicas especializadas em DP/DR pelo mundo, uma parcela relevante dos pacientes conta a mesma história que você está contando agora.
Dois fatores aparecem com frequência nesses casos.
O primeiro é a idade. O quadro costuma se instalar na adolescência ou no começo da vida adulta, e é raro começar depois dos 25 anos. Cérebro ainda em formação parece ficar mais sensível a esse efeito, e existem descrições de adolescentes que desenvolveram despersonalização persistente depois de usar maconha.
O segundo é o contexto. Nos casos acompanhados, o episódio quase sempre aconteceu num período de estresse importante na vida da pessoa. Perda, cobrança, mudança, término, um período ruim que já vinha se arrastando. A maconha raramente é o único ingrediente da receita.
Isso não quer dizer que quem fuma vai desenvolver o quadro. A maioria das pessoas que sente irrealidade sob efeito da substância vê aquilo passar junto com o efeito e nunca mais pensa no assunto.
Maconha mais forte e os canabinoides sintéticos
A concentração de THC da maconha que circula hoje é bem maior do que a de algumas décadas atrás, e isso preocupa os pesquisadores. O que dá para dizer com alguma segurança é que quanto mais concentrado o produto, mais intensa tende a ser a reação aguda. Sobre efeitos de longo prazo, a pesquisa aponta mais risco de psicose e de dependência, e ainda não deu uma resposta clara sobre ansiedade, depressão ou despersonalização.
Caso à parte são os canabinoides sintéticos, vendidos como “K2” ou “erva legal”. Eles não são maconha, agem de um jeito diferente no organismo e são mais imprevisíveis. Há casos publicados de despersonalização persistente depois do uso desse tipo de produto.
“A maconha quebrou meu cérebro?”
A explicação que circula em fórum e em vídeo é a da viagem que nunca terminou: a droga teria danificado alguma coisa, e você agora estaria preso nesse estado.
Uma revisão recente da literatura questiona essa leitura por dois motivos. O quadro se relaciona ao modo como certas áreas do cérebro passam a funcionar em conjunto, e não a uma lesão. E a substância age mais como um gatilho, acelerando a manifestação de algo que já vinha se organizando em pessoas mais sensíveis, ligado à forma de lidar com emoções difíceis.
O mesmo trabalho chama atenção para o preço de acreditar na versão do dano permanente. Quem se convence disso passa a se enxergar como alguém quebrado, para de procurar o que mais está em jogo na própria vida e perde a confiança na capacidade de melhorar. O medo, nesse ponto, atrapalha mais do que a substância.
Vale um detalhe que costuma tranquilizar. Pesquisadores já testaram se pessoas com despersonalização percebem pior os sinais do próprio corpo, coisas como os próprios batimentos cardíacos. Elas percebem igual a todo mundo. O corpo continua mandando os sinais e você continua recebendo. O que mudou foi a sensação de que aqueles sinais são seus.
Por que a sensação não vai embora sozinha
Se não é dano permanente, por que em algumas pessoas isso se arrasta?
Porque entra em cena um círculo que se alimenta. A sensação estranha aparece. Você a lê como sinal de que algo grave aconteceu. Essa leitura aumenta a ansiedade. A ansiedade intensifica a sensação, que agora parece confirmar a leitura. E assim por diante.
Em volta desse círculo se formam hábitos que parecem proteger e acabam alimentando:
- Checar o tempo todo se a sensação continua ali.
- Passar a madrugada pesquisando sintomas.
- Evitar lugares, pessoas e situações que possam disparar de novo.
- Pedir para os outros confirmarem que você parece normal.
Existem relatos antigos de pessoas que sentiram despersonalização pela primeira vez usando maconha e depois passaram a senti-la sem a droga. O medo da sensação foi virando ansiedade antecipatória, depois pânico, e várias delas acabaram deixando de sair de casa. O gatilho tinha sido a substância, mas o que sustentava o quadro anos depois era o medo dele.
Numa pesquisa que conduzi com colegas na UFCSPA, quanto menos a pessoa consegue abrir espaço para o desconforto, mais intensos são os sintomas de despersonalização. Lutar contra a sensação tende a alimentá-la. Esse ciclo está explicado com mais detalhe no texto sobre TCC para despersonalização.
O que fazer diante da despersonalização por maconha
Parar o uso. Primeiro passo, e não é sermão. Continuar usando mantém o gatilho ligado e impede saber o que é efeito da substância e o que é o quadro se sustentando sozinho. E isso costuma acontecer sozinho: o próprio DSM-5 registra que a grande maioria das pessoas nessa situação fica com forte aversão à substância e não volta a usar.
Diminuir a checagem. Passar a noite pesquisando sintomas e testando se a sensação continua parece investigação, mas funciona como combustível. Não precisa cortar de uma vez. Comece reparando quanto tempo do seu dia isso está tomando.
Procurar avaliação. Se a sensação persiste semanas depois do último uso, leve isso a um profissional. Uma avaliação médica também faz sentido, principalmente se o quadro começou tarde na vida, se os sintomas são atípicos ou se há outras queixas de saúde envolvidas.
Considerar psicoterapia. A abordagem mais estudada para DP/DR é a Terapia Cognitivo-Comportamental adaptada ao quadro, que trabalha esse círculo entre sensação, medo e vigilância. A Terapia de Aceitação e Compromisso também vem sendo pesquisada. Nenhum psicólogo pode prometer prazo de melhora ou garantir resultado, e isso não é cautela minha, é o que o Código de Ética da profissão determina. O que existe é um caminho com respaldo, e a resposta de cada pessoa é individual.
Quando procurar um psicólogo
Vale buscar ajuda se a sensação de irrealidade persiste há semanas mesmo sem uso novo, se ela está atrapalhando trabalho, estudo ou suas relações, ou se o medo de que ela volte já está organizando a sua rotina.
Também vale se você já tentou terapia e sentiu que o profissional não conhecia o quadro. É uma queixa comum, e não é culpa sua. DP/DR ainda aparece pouco na formação clínica, e muita gente passa anos com diagnóstico de ansiedade antes de alguém nomear direito o que está acontecendo.
Se quiser entender como o quadro costuma evoluir ao longo do tempo, escrevi sobre isso em despersonalização tem cura.
Lucas Augusto
Psicólogo especializado em DP/DR · CRP 07/35339
Mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, com pesquisa publicada sobre DP/DR. Atendo online desde 2021 em Terapia Cognitivo-Comportamental. Se quiser conversar sobre o que está vivendo, entre em contato.
A maconha pode causar despersonalização?
Pode, e isso acontece inclusive com pessoas sem transtorno nenhum. Em pesquisas de laboratório, voluntários saudáveis fumaram maconha e relataram a sensação de irrealidade, com pico cerca de meia hora depois. Quem fumou um cigarro sem princípio ativo não sentiu nada disso. Sentir isso durante o efeito não significa que exista algo errado com você.
Quanto tempo dura a despersonalização depois de fumar?
Na maioria das vezes a sensação vai embora junto com o efeito da substância. Em algumas pessoas ela continua depois, e é isso que muda a conversa. Não existe um prazo padrão, e não seria honesto oferecer um. O que faz diferença é observar se a sensação persiste em semanas sem uso novo e procurar avaliação se for o caso.
Sentir despersonalização usando maconha significa que eu tenho o transtorno?
Não necessariamente. O DSM-5 é explícito: despersonalização e desrealização associadas aos efeitos fisiológicos de uma substância, durante a intoxicação ou a abstinência, não são diagnosticadas como Transtorno de Despersonalização/Desrealização. O diagnóstico passa a ser considerado quando os sintomas persistem por algum tempo sem novo uso.
A maconha causou algum dano no meu cérebro?
Esse é o medo mais comum de quem passa por isso, e a pesquisa não sustenta essa leitura. O quadro tem a ver com o modo como certas áreas do cérebro passam a funcionar em conjunto, e não com uma lesão. A substância age mais como gatilho em pessoas já sensíveis. Quando pesquisadores testaram se quem tem despersonalização percebe pior os sinais do próprio corpo, o resultado foi igual ao de quem não tem o quadro.
Preciso parar de usar maconha para melhorar?
Parar o uso é o primeiro passo, porque continuar mantém o gatilho ativo e impede distinguir o que é efeito da substância do que é o quadro se sustentando sozinho. O DSM-5 registra que a grande maioria das pessoas nessa situação desenvolve forte aversão à substância e não volta a usar. Se parar estiver difícil, isso também é assunto para acompanhamento profissional.
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