Se você procurou tratamento caseiro para despersonalização, é provável que esteja agora com aquela sensação de assistir à própria vida por trás de um vidro, querendo alguma coisa que dê para fazer hoje, sozinho, antes de marcar consulta com alguém.
Existe o que fazer. Só que parte do que se recomenda por aí, usado do jeito errado, mantém o problema aceso.
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O que você está sentindo tem nome
Despersonalização é a sensação de estar distante de si mesmo. O corpo parece não ser seu, a voz soa de longe, as emoções chegam abafadas. Desrealização é o mesmo estranhamento voltado para fora: o mundo parece um cenário, sem profundidade, as pessoas parecem distantes.
Você continua sabendo que é uma sensação. Não acredita que o mundo deixou de existir, e é justo essa lucidez que assusta, porque você percebe com clareza que algo mudou.
Quando o quadro fica e passa a atrapalhar a vida, ele recebe o nome de Transtorno de Despersonalização/Desrealização, ou DP/DR. Se quiser entender melhor os termos, escrevi sobre o que é despersonalização e o que é desrealização.
Existe tratamento caseiro para despersonalização?
Não existe uma receita que você faça em casa e cure o quadro. Nenhum chá, suplemento ou exercício de cinco minutos tem pesquisa mostrando isso.
O que existe, e faz diferença, é o que você faz no seu dia com a sensação. Alguns hábitos alimentam a DP/DR. Outros tiram o combustível dela. A pesquisa sobre o quadro diz bastante sobre os dois lados, e é isso que dá para chamar, com honestidade, de tratamento caseiro para despersonalização.
Por que a sensação continua
A despersonalização passageira é comum. Cansaço extremo, uma noite sem dormir, um susto grande, uma crise de ansiedade: qualquer pessoa pode sentir isso por algumas horas.
O que transforma o episódio em algo que se arrasta é o que acontece depois. Pesquisadores que estudam o quadro descrevem um círculo. A sensação aparece. Você a lê como sinal de algo grave, loucura, dano no cérebro, uma doença que ninguém encontrou. Essa leitura dispara ansiedade. A ansiedade intensifica a sensação, que parece confirmar o medo. E a volta recomeça.
Um estudo recente acrescenta uma peça. A desconexão começa como um jeito de fugir de emoções difíceis, e funciona na hora, porque alivia. Com a repetição, ela passa a disparar sozinha diante de qualquer emoção negativa, sem você decidir nada. Vira hábito da mente. Por isso você não consegue “desligar” a sensação à força, e não adianta se culpar por isso.
O que costuma piorar
Tudo o que está nesta lista parece proteção. Quem convive com DP/DR faz quase tudo isso, e faz porque tem lógica. O problema é o efeito.
- Checar o tempo todo. Parar a cada hora para ver se a sensação continua ali mantém sua atenção grudada nela.
- Testar-se no espelho. Olhar fixo para o próprio rosto provoca estranhamento em qualquer pessoa, inclusive em quem não tem quadro nenhum. Em laboratório, basta olhar para o espelho ou para um ponto na parede por alguns minutos. Usar o espelho como teste produz o resultado que você teme.
- Pesquisar sintomas de madrugada. Cada texto novo traz uma hipótese pior e mais uma coisa para checar.
- Evitar lugares e pessoas. Deixar de ir ao mercado, à festa ou ao trabalho porque “lá piora” encolhe a vida e confirma que a sensação manda em você.
- Pedir confirmação. Perguntar a quem está perto se você parece normal alivia por minutos e cria a necessidade de perguntar de novo.
- Lutar contra a sensação. Tentar expulsá-la com força, esperar o dia em que ela some para voltar a viver.
Numa pesquisa que conduzi com colegas na UFCSPA, quanto menos a pessoa consegue abrir espaço para o desconforto, mais intensos são os sintomas de despersonalização. Brigar com a sensação costuma deixá-la mais alta.
Se você se reconheceu nessa lista, dá para conversar sobre como sair desse ciclo.
Falar pelo WhatsAppAs técnicas de “voltar ao real” funcionam?
Você já deve ter lido sobre elas: segurar gelo, ouvir música alta, nomear cinco coisas que está vendo, cheirar algo forte. São as chamadas técnicas de aterramento, e aparecem em quase todo texto sobre o assunto.

Elas podem ajudar. Numa crise de ansiedade, trazer a atenção para os sentidos baixa a intensidade e te devolve ao que está acontecendo à sua volta.
O que decide é a função. Se você usa o gelo para fazer uma pausa e depois segue com o seu dia, ele cumpre o papel. Se você usa o gelo para arrancar a sensação e fica esperando o efeito, conferindo se funcionou, repetindo de novo e de novo, ele virou mais uma checagem. Aí a técnica entra no círculo em vez de sair dele.
Uma pergunta ajuda a separar: depois de usar, você voltou para o que estava fazendo, ou passou a vigiar a sensação?
O que ajuda no dia a dia
Observar sem se julgar. Uma pesquisa com jovens adultos mostrou algo que vale guardar. Prestar atenção às próprias sensações, sozinho, não protegeu contra a despersonalização. O que protegeu foi prestar atenção sem julgar o que aparecia. Na prática, trocar “de novo isso, estou piorando, nunca vai passar” por algo mais próximo de “a sensação de irrealidade apareceu”. Você nota, dá nome e não entra na discussão.
Continuar fazendo o que importa com a sensação junto. Ir ao trabalho, encontrar a amiga, terminar a série, mesmo sentindo o vidro. Esperar a sensação sumir para retomar a vida dá a ela o comando da sua agenda. Essa é a lógica da Terapia de Aceitação e Compromisso aplicada ao quadro.
Diminuir a checagem aos poucos. Não precisa cortar de uma vez. Comece contando quantas vezes por dia você confere a sensação ou pesquisa sobre ela. Depois tente adiar: quando der vontade de checar, espere dez minutos e siga com o que estava fazendo.
Reparar no que vinha antes. Como a desconexão costuma aparecer quando alguma emoção difícil chega, vale olhar para o que aconteceu antes do pico. Uma conversa tensa, uma cobrança, uma lembrança. Você não precisa resolver nada na hora. Só reparar já tira a sensação do lugar de mistério.
Cuidar do básico. Sono irregular, excesso de cafeína e uso de maconha ou outras substâncias costumam intensificar a sensação em quem já tem o quadro. Se a sua DP/DR começou depois de usar maconha, escrevi um texto só sobre despersonalização por maconha.
“Se eu parar de lutar, vou ficar assim para sempre?”
Esse é o medo que trava quase todo mundo. Parece que baixar a guarda vai deixar a sensação tomar conta de vez.
Acontece o contrário do que o medo prevê. A luta é parte do que mantém a sensação em primeiro plano. Parar de lutar quer dizer parar de gastar o dia inteiro tentando expulsá-la e usar essa energia para viver. Você continua querendo melhorar, e ninguém está pedindo que goste da sensação.
A terapia mais estudada para DP/DR trabalha nisso: ajudar a pessoa a ler os sintomas de um jeito menos ameaçador e a largar, aos poucos, a checagem, a evitação e os rituais de segurança. Explico o método com mais calma no texto sobre TCC para despersonalização.
Quando o cuidado em casa não basta
O que você faz sozinho tem limite, e reconhecer isso também é cuidado.
Procure avaliação se a sensação está presente na maior parte dos dias há semanas, se ela atrapalha trabalho, estudo ou relações, ou se o medo dela já organiza sua rotina. Uma consulta médica também faz sentido, em especial se os sintomas começaram depois dos 25 anos, se vieram junto com outras queixas físicas ou se têm algo fora do comum, como desmaios ou falhas de memória.
Se aparecerem pensamentos de se machucar ou de não querer mais viver, procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, de graça.
Quando procurar um psicólogo
Vale buscar um psicólogo se você já tentou o que está neste texto e o círculo continua girando, ou se não consegue nem começar porque a ansiedade não deixa.
Vale também se você já fez terapia e sentiu que o profissional não conhecia o quadro. É uma queixa comum, e a culpa não é sua. DP/DR aparece pouco na formação clínica, e muita gente passa anos com diagnóstico de ansiedade antes de alguém nomear o que está acontecendo. Nenhum psicólogo pode prometer prazo ou resultado, e o Código de Ética da profissão proíbe isso. O que existe é tratamento com pesquisa por trás, e a resposta de cada pessoa é individual.
Se quiser entender como o quadro costuma evoluir, escrevi sobre isso em despersonalização tem cura.
Lucas Augusto
Psicólogo especializado em DP/DR · CRP 07/35339
Mestre em Psicologia e Saúde pela UFCSPA, com pesquisa publicada sobre DP/DR. Atendo online desde 2021 em Terapia Cognitivo-Comportamental. Se quiser conversar sobre o que está vivendo, entre em contato.
Existe tratamento caseiro para despersonalização?
Não existe receita caseira que cure o quadro, e nenhum chá, suplemento ou exercício tem pesquisa mostrando isso. O que faz diferença é o que você faz no dia a dia com a sensação: alguns hábitos, como checar o tempo todo e evitar lugares, alimentam a despersonalização; outros, como observar sem se julgar e seguir com a rotina, tiram o combustível dela.
Técnicas de aterramento, como segurar gelo, funcionam para despersonalização?
Podem ajudar numa crise de ansiedade, porque trazem a atenção para os sentidos. O que decide é o uso. Como pausa, antes de voltar ao que você estava fazendo, cumprem o papel. Usadas para arrancar a sensação, conferindo se funcionou e repetindo, viram mais uma forma de checagem e ajudam a manter o ciclo.
O que piora a despersonalização?
Checar a sensação o tempo todo, testar-se no espelho, pesquisar sintomas de madrugada, evitar lugares e pessoas, pedir confirmação de que você parece normal e lutar para expulsar a sensação. Tudo isso parece proteção, mas mantém a atenção presa nela e confirma a leitura de que algo grave está acontecendo.
Olhar no espelho piora a despersonalização?
Olhar fixo para o próprio rosto provoca estranhamento até em pessoas sem nenhum quadro clínico; em laboratório, alguns minutos diante do espelho ou de um ponto na parede bastam. Usar o espelho para testar se a sensação continua produz o que você teme, por isso vale deixar esse teste de lado.
Quando procurar ajuda profissional para despersonalização?
Quando a sensação está presente na maior parte dos dias há semanas, atrapalha trabalho, estudo ou relações, ou quando o medo dela já organiza sua rotina. Uma avaliação médica também é indicada se os sintomas começaram mais tarde na vida ou vieram com outras queixas físicas. Pensamentos de se machucar pedem ajuda no mesmo dia: o CVV atende 24 horas pelo 188.
Referências
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